O impacto inevitável do meio ambiente no processo do envelhecimento cutâneo

O conceito de envelhecimento extrínseco muitas vezes é empregado como sinônimo do processo de envelhecimento provocado por fatores do meio ambiente: a exposição solar em sua faixa ultravioleta é a mais estudada, e recentemente, a luz visível, a radiação infravermelha e a poluição se mostraram também agentes de interação deletéria com a pele.

Estes fatores ambientais se revestem de um componente involuntário, que ocorre independentemente da vontade do indivíduo, sendo caracterizado pela exposição regular relacionada à moradia ou ocupação do paciente, o que o torna muitas vezes de difícil controle, sendo por vezes inevitável.

FOTOENVELHECIMENTO, FOTOCARCINOGÊNESE E EXPOSIÇÃO OCASIONAL AO SOL: EVIDÊNCIAS

É muito conhecido, embora não totalmente compreendido, que a radiação ultravioleta, em suas faixas A e B, levam a alterações degenerativas na derme que resultam nos sinais clínicos de fotoenvelhecimento, até em doses baixas, mas repetidas, mesmo sem eritema visível.¹ ²

A dose de radiação ultravioleta que alcança a pele depende de condições como estação do ano, sendo muito maior no verão³ ⁴, além da altitude, latitude e solo, sendo significativamente maiores em grandes altitudes, baixas latitudes e em ambientes claros, como neve, areia e água.⁵ 

A radiação UVA, em particular o UVA longo no que se relaciona a fotocarcinogênese, não tem correlação com o eritema, e está presente relativamente o ano todo de uma maneira mais uniforme do que o UVB, levando a vários fenômenos que precedem os sinais clínicos clássicos do fotodano: na epiderme, promove o estresse oxidativo sobre o DNA dos queratinócitos basais e melanócitos; na derme, induz a maior secreção das MMPs 1, 3 e 9 e mediadores de inflamação IL-6, CSF2 e CCL20; aumenta a expressão de oncogenes e leva a um dano celular difuso, com alteração do aproveitamento energético celular.⁶

O fotoenvelhecimento e a fotocarcinogênese UV mediados são os processos fisiopatológicos mais estudados, mas não são os únicos. A irradiação UV aguda altera a resposta imune cutânea e impacta também na imunidade inata, levando a alterações da barreira cutânea. Há um impacto negativo na imunidade adaptativa por depleção de células de Langerhans e atividade oxidativa.⁷

Na microvasculatura dérmica, o impacto da radiação UV se faz presente tanto na célula endotelial como na dilatação dos vasos, típico da pele fotoenvelhecida.⁸

O dano oxidativo e a microinflamação aceleram o envelhecimento, por indução de citocinas inflamatórias e consequente aumento de metaloproteinases, capazes de levar a alterações degenerativas do colágeno e elastina.⁹ ¹º 

Na pele fotoexposta, fenômenos pigmentares são caracterizados pela presença de efélides, lentigo actínico e um padrão moteado de pigmentação, típico do fotoenvelhecimento, e decorrentes de um aumento de melanócitos DOPA positivos na camada basal.¹¹ 

Portanto, indivíduos que moram ou trabalham em ambientes ensolarados, estão sob uma maior predisposição ao fotodano, e o comportamento fotoprotetor deve ser encorajado continuamente, mesmo na exposição rotineira.¹²

EXPOSIÇÃO À LUZ VISÍVEL


O espectro de luz visível (400-780nm) interage com a pele humana induzindo metaloproteinases e TNF-α, bem como aumenta a produção de espécies livres de oxigênio¹³ , embora a pigmentação não tenha participação destes fenômenos oxidativos.¹⁴  

A faixa azul de luz visível é particularmente a mais deletéria, sendo capaz de levar à redução dos níveis de p53 e necrose queratinocítica.¹⁵ 

Embora a luz artificial, emitida por lâmpadas, computadores e telefones celulares seja fonte de luz visível, os estudos para investigar possíveis efeitos deletérios desta emissão não obtiveram resultados significativos.¹⁶ ¹⁷
   

EXPOSIÇÃO À RADIAÇÃO INFRAVERMELHA

Embora amplamente usada para fins terapêuticos, a radiação infravermelha (IR) que vai de 760nm -1000nm está envolvida em mecanismos de fotoenvelhecimento e fotocarcinogênese, possivelmente por ativação de genes e da expressão das metaloproteinases 1.¹⁸ 

Além da ação vasodilatadora direta, há evidências de uma ação oxidativa sobretudo na faixa de radiação infravermelha conhecida como curta, entre 760 e 1440 nm (IR-A). Alterações mitocondriais nos fibroblastos levando a desordens funcionais e aumento de mastócitos também parecem estar envolvidos no processo de envelhecimento cutâneo.¹⁹

Ainda não há uma correlação clara entre dose e potencial de dano; os efeitos sao similares in vitro usando doses baixas ou moderadas.²º 

Estes efeitos parecem ser potencializados pelo próprio calor que esta faixa de radiação gera, demonstrando em condições experimentais, uma maior expressão de enzimas que degradam matriz dérmica e aumento de rugas.²¹

EXPOSIÇÃO AO CALOR


A exposição ao calor do sol leva a um dano onde é difícil distinguir a participação da temperatura e da radiação; entretanto, o dano térmico leva ao aumento das proteínas agudas do choque térmico (heat shock proteins) que são capazes de estimular neoangiogênese, quimiotaxia para células inflamatórias e dano ao DNA por estresse oxidativo.²² 

Indução de metaloproteinases e tropoelastina com concomitante acúmulo de material elastótico, onde a presença de IR pode evidentemente agravar o mecanismo.²³

A observação de profissionais que atuam em altas temperaturas, como padeiros, levou Seo e Chung a propor o termo envelhecimento térmico.²⁴


EXPOSIÇÃO À POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA

Os poluentes atmosféricos vêm sendo estudados pela ação deletéria na pele, já que são capazes de serem absorvidos diretamente ou pelos orifícios das glândulas sebáceas e sudoríparas ou pelo orifícios foliculares.²⁵

Há na atmosfera dois grandes grupos de poluentes: os particulados e gases ou compostos orgânicos voláteis. 

Além da alteração que promovem da barreira cutânea, e também os fenômenos pigmentares, há ativação de fenômenos oxidativos, inflamatórios e dano direto ao DNA, pela ativação do receptor aril hidrocarboneto, promovido pelo ozônio.²⁶

Dois estudos epidemiológicos demonstraram uma correlação entre a presença de sinais de envelhecimento e a exposição a poluentes em grandes centros urbanos²⁷ ²⁸, evidenciando mais um dano relacionado à poluição atmosférica. 

Deve-se frisar que a radiação ultravioleta A em combinação com poluentes comuns, como os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos aumentam os danos relacionados ao fotoenvelhecimento, por sinergia do estresse oxidativo sobre a pele.²⁹

COMENTÁRIOS FINAIS

A interação do homem com o meio ambiente ainda está longe de ser inteiramente compreendida. A pele, órgão de primeiro contato com este ambiente, está submetida a estímulos constantes, cujas consequências se evidenciam à medida que o tempo passa. 

A maior expectativa de vida certamente demonstrará novos desdobramentos das exposições já estudadas (radiação solar, poluição, temperatura) e possivelmente, outros fatores ambientais terão seus efeitos demonstrados sobre a pele. Contaminações ambientais, condições do solo e radiações são objeto de uma nova área de estudos médicos, denominada Geomedicina.³º ³¹

A vocação multidisciplinar e globalizada desta nova área médica, impulsionada nos anos Pós-Guerra e contando com novas ferramentas tecnológicas a partir do século 21, nos ajudarão a compreender a amplitude de nossa interação com o ambiente – e nossa responsabilidade para com a saúde da pele de nossos pacientes. 

Por ora, já há evidências suficientes que a radiação solar exerce um efeito amplo e relevante na pele com um perfil acumulativo, independentemente da localidade; mais recentemente, os grandes centros urbanos com sua poluição atmosférica possuem um papel de agravamento de vários danos promovidos diretamente ou em conjunto com a radiação solar.